Samarkand – Roteiro de 3 dias, Uzbequistão

Samarkand será porventura a cidade mais famosa do Uzbequistão, o local para onde navega o imaginário do ocidental quando lhe é mencionada a Rota da Seda e os mistérios desta parte do Oriente.

Trata-se da segunda maior cidade do país, com meio milhão de habitantes, e localiza-se no vale do Zerafshan, a cerca de 200 km a oeste de Tashkent.

Tem por detrás de si uma longa história, tendo acumulado influências culturais, bebidas dos diversos povos que a conquistaram e administraram. Macedónios, árabes, mongóis e, talvez o mais determinante para a evolução recente de Samarkand, o grande Timur, com raízes turco-mongóis, que chegou nos finais do século XIV e fez dela a sua capital.

Samarkand foi um ponto essencial na importante Rota da Seda, sofreu razias, foi reconstruída. O seu charme valeu-lhe epítetos diversos dos poetas que a cantaram:  “A Roma do Oriente”, “A Pérola do Islão Oriental”. Desde 2001 que a UNESCO reconheceu a sua importância, incluindo-a na sua lista de lugares Património Mundial da Humanidade.

Hoje em dia a cidade está dividida em duas grandes áreas: a parte antiga, onde se localizam os monumentos grandiosos e as velhas moradias que encantam os visitantes, e a parte moderna, construída sobretudo ao longo do século XX, durante a era Soviética, e que poderá ter interesse para os que têm curiosidade em observar os vestígios dessa época.

A viagem

Estacao comboio em Samarkand
Estação comboio em Samarkand

O comboio oferece a ligação mais rápida e confortável, mas tem como inconveniente a limitada oferta de partidas e o processo de aquisição de bilhetes.

Existem três partidas diárias, às 7:30, 8:00 e 18:50, demorando a viagem pouco mais de duas horas. Da estação de Tashkent Yuzhnyy há mais quatro partidas diárias, às 9:13, 19:27, 20:27 e 22:12, mas estes comboios demoram mais tempo, quase quatro horas, a chegar a Samarkand.

As marshrutkas de Tashkent para Samarkand são frequentes, demorando umas quatro horas a vencer os 230 km que separam as duas cidades.

Aeroporto de Tashkent
Uzbekistan Airways

Existem voos da Uzbekistan Airways, mas não são diários. É uma viagem rápida e económica, mas considerando todo o processo envolvido é provável que seja mais vantajoso usar o comboio.

O que ver e fazer em Samarkand

Registão

Registan Samarkand

O Registão é a grande praça de Samarkand, o centro da sua arquitectura monumental da era de Tibur e o seu local mais emblemático.

Na época medieval existia aqui o principal mercado da cidade e foi a área escolhida para a obra mais monumental da cidade, a obra que transformaria Samarkand e a marcaria até aos dias de hoje.

Os principais edifícios do complexo são as três madraças. A de Ulugbek, terminada em 1420, foi a primeira a surgir. Seguiram-se a de Sher Dor e a de Tilla-Kari, esta última datada de 1640.

O tempo e os abalos sísmicos frequentes na região foram desgastando as estruturas e à entrada do século XX eram pouco mais do que ruínas. As autoridades soviéticas investiram na requalificação do complexo, uma obra ambiciosa que se estendeu ao longo de quase todo o século.

Mausoléu de Gur-e-Amir

Mausoléu de Gur-e-Amir

Neste monumental mausoléu repousam os restos mortais de Timur, de dois dos seus filhos e de dois netos, incluindo Ulugbek, responsável por uma das mesquitas do Registão.

Muitas pessoas ficam surpreendidas pela relativa modéstia do mausoléu que marca o local da sepultura de um monarca tão poderoso como Timur. Na realidade o seu corpo não deveria ter sido aqui colocado. Para isso ele tinha preparado uma cripta para si em Shakhrisabz. Sucede que Timur faleceu inesperadamente, segundo parece vítima de uma pneumonia, quando se encontrava no Cazaquistão a organizar uma invasão à China. Nesse ano, o de 1405, o Inverno tinha sido rigoroso e o acesso a Shakhrisabz não era possível e decidiu-se que seria sepultado neste mausoléu, construído apenas um ano antes para receber a sua descendência quando chegasse a altura.

Uma curiosidade: quando o antropólogo soviético abriu a cripta, em 1941, concluiu que Timur era um homem alto para a sua época, tendo cerca de 1,70 m. Detectou sinais de deficiências na perna e no braço direito, provavelmente fruto de feridas de combate, e que Ulugbek tinha sido decapitado. No interior da cripta encontrou uma inscrição que dizia: quem violar este espaço terá que enfrentar um inimigo mais temível que eu próprio”.  Estava-se a 21 de Junho e no dia seguinte os exércitos de Hitler invadiam a URSS.

Mesquita de Bibi Hanim

Mesquita de Bibi Hanim

Esta mesquita foi construída na época de Timur, entre 1399 e 1404, financiada pelo espólio que resultou da sua invasão da Índia. Chegou a ser uma das maiores mesquitas do mundo, com a sua enorme cúpula azul a elevar-se aos 41 metros e um portal de entrada apenas um pouco mais baixo.

Quando foi construída deveria ter capacidade para receber toda a população masculina de Samarkand, que ali se deveria reunir às Sextas-feiras. Mas as suas elevadas proporções fragilizaram a estrutura e pouco tempo após a sua conclusão uma parte da mesquita ruiu.

Mais recentemente, em 1897, um sismo fez a cidade tremer e a mesquita sofreu sérios danos, passando uma boa parte do século XX como uma ruína.  Nos anos 70 sofreu algumas obras de restauro, que se concluíram já após a independência do Uzbequistão.

Shah-i-Zinda

Shah-i-Zinda

O seu nome significa “Túmulo do Rei Vivo” e é o lugar onde descansam os restos mortais de muitos dos monarcas que reinaram sobre estas paragens assim como de outros notáveis do Uzbequistão.

O núcleo do complexo é o que se pensa ser o túmulo de Qusam ibn-Abbas, primo do profeta Maomé, que terá trazido o Islão para esta região no século VI.

Aqui se encontram os trabalhos em mosaico mais fascinantes, como o que se observa no túmulo de Shodi Mulk Oko, de meados do século XIV, cujo acabamento foi de tal qualidade que até aos dias de hoje basicamente não necessitou de nenhum restauro.

O mesmo não se pode dizer de outras áreas do complexo, que foram sujeitas a obras de renovação em 2005. Note as ruínas dos antigos banhos no exterior de Shah-i-Zinda, datados do século XV e, se gostar deste tipo de locais, não deixe de visitar o grande cemitério de Samarkand, localizado por detrás do complexo.

Observatório de Ulugbek

Observatório de Ulugbek

Este antigo observatório astronómico do século XV foi descoberto de forma totalmente inesperada em 1908, quando o que hoje ali se vê foi desenterrado para espanto dos arqueólogos que trabalhavam na área.

Na realidade, o rei Ulugbek, neto de Timur, distinguiu-se mais como astrónomo do que como monarca e este observatório, concluído por volta de 1420, terá sido das suas obras mais queridas.

Tinha três pisos, chegando aos 30 metros de altura, e no seu salão principal existiam instrumentos para observação dos astros.

Actualmente existe no local um pequeno museu dedicado ao Observatório, onde se destaca um mapa do mundo aqui desenhado em 1605.

O observatório fica um pouco afastado do centro, podendo-se chegar ao local usando os autocarros #45 ou #99.

Sinagoga de Gumbaz

Esta sinagoga localiza-se num lugar discreto do centro histórico de Samarkand. Foi construída em 1891 e ainda hoje é utilizada pela pequena comunidade judia da cidade. Os viajantes são bem-vindos na sinagoga, mas considerando as possibilidades de a encontrar fechada, será melhor pedir a alguém para telefonar e agendar a visita. Tente o +998 91 552 7268.

Bazar de Siaab

Bazar de Siaab

Qualquer mercado tradicional da Ásia Central merece a atenção de um visitante e em Samarkand recomenda-se o Bazar de Siaab, um local que remete para o imaginário da Rota da Seda. Localiza-se entre a Mesquita de Bibi Hanim e Shokhi Zinda.

Este foi durante séculos o local de reunião da comunidade, o sítio onde as pessoas sociabilizavam e trocavam informações. Hoje em dia as coisas serão algo diferentes. Todo o comércio se faz no interior de pavilhões, mas os aromas e as cores presentes desde sempre mantêm-se e cativarão o visitante.

Ali se vêem frutos secos, especiarias, legumes, e pães tradicionais, que deverão merecer especial atenção. Existe um restaurante onde se preparam os pratos típicos do Uzbequistão, alguns deles cozinhados sobre fogueiras. Se não tiver apetite poderá experimentar um simples chá verde e deixar-se estar a observar.

Museu do Estado de Cultura Histórica

Trata-se de um dos mais antigos museus do país, tendo sido criado em 1896. A sua colecção é vasta e interessante, com alguns elementos de destaque, como o filme rodado pelo arqueólogo M. Kayumov no dia em que abriu o túmulo de Timur e que, sem ele saber, era a véspera da invasão do seu país pelos exércitos nazis. Procure as taças de prata datadas do século V, retiradas do sítio arqueológico de Chelek, e o globo do século XIX feito por Khodja Yusuf Mirfayazov.

A exposição está dividida em grandes temas, nomeadamente, arqueologia, etnografia, artes aplicadas e numismática, mas existem peças de outras áreas, como é o caso da colecção de pinturas de autores uzbeques contemporâneos.

O museu esteve instalado durante muito tempo junto ao Registão, mas encontra-se agora na rua Ulugbek, onde reabriu ao público em 2014. Pode agora ser visitado todos os dias, das 9:00 às 17:00.